SE INVENTAR E REINVENTAR, SEM PERDER A RELEVÂNCIA

A Netflix, pioneira na distribuição de entretenimento via streaming, foi fundada por Reed Hastings e Marc Randolph em 1997, inicialmente com o nome de Kibble. Surgiu como um serviço de locações e vendas de DVDs, solicitados via site e entregues pelo correio. Desde 1999, possui modelo de cobrança baseado em assinatura - ou seja, cobra um valor fixo mensal, independentemente do número de títulos locados.
Os anos passaram, e a evolução da banda larga tornou a Internet mais rápida, robusta e acessível, possibilitando a transmissão de conteúdo on-line de qualidade. Com olhar direcionado ao cliente, a empresa logo percebeu que migrar do modelo de serviços físicos para o digital, além de reduzir despesas e riscos, traria mais comodidade e conveniência aos assinantes.
O serviço de streaming da Netflix foi lançado em 2007. Contudo, para suportar os custos de desenvolvimento e equilibrar as contas, mantiveram os dois modelos de negócio (físico e digital) simultaneamente, conduzidos por divisões distintas dentro da empresa.
A tática foi duramente criticada por analistas de mercado, que diziam que a empresa praticava canibalismo corporativo ao concorrer consigo mesma. Entretanto, esse foi o "pulo do gato" da Netflix, pois permitiu uma suave transição de mercado em direção ao streaming - que apesar de claramente indicar o futuro do negócio (e de crescer rapidamente), tinha menor margem de lucro.
Site de apresentação do serviço de streaming, em 2007
Cinco anos depois, ao divulgar balanço, a Netflix comprovou o sucesso da sua estratégia: perdiam 400 mil assinantes da mídia física por trimestre, enquanto ganhavam 2 milhões na plataforma de streaming no mesmo período. Nesta época, em 2012, a empresa já marcava presença em 40 países, com 33 milhões de assinantes na plataforma digital. Nada mal!
CURIOSIDADE
A Netflix ainda possui o serviço de aluguel de DVDs nos EUA, com cerca de 3 milhões de assinantes (2018) de acordo com matéria divulgada na revista Variety. 190 mil assinantes abandonam o serviço a cada 04 meses, o que dá a estimativa de que a divisão de DVDs da Netflix chegará ao fim no ano de 2022.
EU SEI O QUE VOCÊS ASSISTIRAM NO VERÃO PASSADO
Conhecer em profundidade os hábitos e preferências de seu público é uma estratégia da Netflix para reter clientes, mesmo com a entrada de diversos concorrentes no mercado.
Assim que lançou sua plataforma de streaming, a Netflix passou a ouvir seus clientes, organizando grupos focais na sede da empresa e em agências de comunicação espalhadas pelos EUA. Seu objetivo era descobrir preferências e entender o que estava em evidência, para então adquirir conteúdos interessantes.
Somado a esse conhecimento, a Netflix passou a analisar e categorizar cuidadosamente todos os filmes e programas de TV imagináveis, formando um banco de dados sobre entretenimento sem precedentes.
Com essa base, criou mais de 76 mil microgêneros para classificar seus títulos, tornando-os específicos e atraentes. Assim surgiram as recomendações da plataforma para "Filmes aclamados pelo público", "Documentários emocionantes sobre a luta contra o sistema" e "Comédias dramáticas irreverentes", por exemplo.
Exemplos da categorização de filmes e séries
Este trabalho tem se mostrado eficiente na atração e fidelização de clientes, pois ajuda o consumidor a encontrar na plataforma algo que agrade. Porém, não é tarefa simples: a Netflix possui uma equipe de 40 pessoas espalhadas ao redor do mundo, os "taggers", que são pagos para assistir e marcar manualmente todos os títulos com metadados um processo tão sofisticado e preciso que envolve um treinamento formatado em 36 páginas, que ensina como classificar e capturar elementos narrativos para criar dezenas de diferentes atributos a cada obra.
Esses cuidados favorecem o tempo que os clientes passam usando a plataforma o que gera ainda mais dados sobre preferências e hábitos. No site da Netflix, há uma área que explica o que os algoritmos captam dos assinantes:
- o conteúdo assistido e que nota foi dada aos títulos;
- em que horário assistiu;
- em quais aparelhos;
- por quanto tempo.
Com essas informações, a Netflix agrupa seus assinantes em categorias, e investiga o que deve recomendar para cada grupo em sua plataforma, e até em que posição as recomendações aparecerão.
FAÇA VOCÊ MESMO
A estratégia baseada em dados permitiu à Netflix investir minimizando os riscos, apostando em conteúdos desejados pelo público. Porém, o alto custo de licenciamento dos títulos (que aumentou cerca de 700% entre 2011 e 2012) espremia a lucratividade.
A saída? Investir em conteúdos originais. Claro que produzir uma série ou filme tem altíssimo custo, mas quanto mais material próprio a Netflix produz, menor a necessidade de terceiros e, consequentemente, o poder de barganha deles.
Assim, em 2013, a empresa lançou seus primeiros títulos originais, dentre eles "House of Cards", "Hemlock Grove", "Arrested Development" e "Orange is the New Black" - criados com base nos dados de preferências e interesses de seu público.
À medida que a competição por assinaturas de streaming começou a esquentar, com o fortalecimento de concorrentes como o Hulu, a Amazon Prime Vídeos e a HBO Go, as empresas de mídia começam a retirar seus catálogos da Netflix ou cobrar mais pelas licenças, levando a empresa a investir cada vez mais em produções originais.
Anúncio do premiado filme original da Netflix - Beasts of no Nation (2015)
Ted Sarandos, diretor de conteúdo da Netflix, divulgou em 2018 que 85% dos novos investimentos da empresa naquele ano foram direcionados para projetos originais.
CURIOSIDADE
A produção Netflix ganha cada vez mais qualidade e destaque.
- Em 2017, a empresa conquistou seu primeiro Oscar, com "Os Capacetes Brancos", na categoria Melhor Documentário Curta-Metragem.
- Em 2019, o longa-metragem Roma recebeu 09 indicações ao Oscar, vencendo em três categorias: melhor filme estrangeiro, melhor diretor e melhor fotografia.
- Em 2020, os títulos "O Irlandês" e "Histórias de um Casamento" concorreram ao Oscar de melhor filme; "Klaus" foi indicado como melhor animação; e o brasileiro "Democracia em Vertigem" concorreu na categoria de melhor documentário - entre outros destaques.
NÚMEROS DA GIGANTE
A Netflix divulgou em 2019 relatório financeiro do terceiro trimestre de 2018, onde a empresa obteve 6,96 milhões de novos assinantes. A empresa possui mais de 130 milhões de assinantes espalhados pelo mundo, garantindo uma receita trimestral de US$ 3,9 bilhões. Só em 2019, a empresa investiu US$ 6,9 bilhões em produções, mas recebeu de volta US$ 11,3 bilhões em receita.



